Uma mãe põe o ventre à serviço da vida, assim como a noite dá à luz o filho que vem ao mundo para encerrar o seu mistério. Eu falo do amanhecer, o herdeiro do silêncio noturno, que diariamente faz nascer a esperança nessa árvore genealógica do tempo. Ele é pai de todas as manhãs, e elas o retribuem, na mesma moeda, findando a sua breve existência; vingando a noite-mãe.
O privilégio desse anunciador habitual daquilo que está por vir é idêntico ao de quem chega cedo e se assenta na primeira fila dos que contemplam um magnífico espetáculo. Ele tem para si a sinfonia dos pássaros e de tantas outras aves, que cantam a cada novo dia que raia subliminarmente.
Nestes dias de outono, a plateia que o prestigia é pequena. Recebê-lo com simpatia é um martírio para muitos, sentimento quase sempre explicado pelas longas jornadas, de telas e de trabalho, que consomem as nossas vidas.
Em tempos como estes, importa dizer que o amanhecer nunca deixou de nos encantar. Nem mesmo quando tantas vezes acordou solitário. Pois em seu belo horizonte, não há espaço para a vaidade. Tampouco é motivo de inveja para ele o acontecimento matinal posterior, que confere prestígio e vida longa às manhãs, até ao meio-dia.
Definitivamente, o amanhecer não nos exige visualizações. E como prêmio, àqueles que o contemplam, ou melhor, que fazem questão de amanhecer em sua companhia, uma contrapartida da sabedoria popular é oferecida: quem cedo se levanta, doença, pobreza e velhice espanta!
Welder Nunes de Souza, aprendendo a amanhecer (com o outono), às 5h27, em 24 de maio de 2025, Jequitinhonha — MG.






