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Entre o campo de futebol e os problemas do Vale

Entre o campo de futebol e os problemas do Vale
O presidenciável Flávio Bolsonaro (PL) esteve em Governador Valadares na noite desta quinta-feira (24). Imagem: Reprodução

Um candidato à Presidência da República que visita uma região tem diante de si uma oportunidade que vai muito além de subir em um carro de som, acenar para apoiadores ou disputar uma partida de futebol. Tem a oportunidade de conhecer a realidade local, ouvir seus  representantes e apresentar propostas para  problemas que não se resolvem com palavras de ordem, bandeiras ou animação de campanha.

A passagem de Flávio Bolsonaro, candidato do Partido Liberal à Presidência da República, por Governador Valadares, nesta quinta-feira, 24 de setembro, oferece um bom ponto de partida para essa reflexão.

A agenda incluiu mobilização política, caminhada pelo centro da cidade, passagem pelo Mercado Municipal, participação no chamado Bloquinho do 22 e uma partida de futebol com correligionários. Uma programação que certamente rendeu fotografias, vídeos para as redes sociais e momentos de descontração.

Mas deixou uma pergunta incômoda: o que, afinal, o presidenciável veio discutir com Governador Valadares sobre o futuro da região?

Não houve reunião com a Câmara de Dirigentes Lojistas (CDL), com a diretoria da Associação Comercial ou com representantes do empresariado local.

Também não houve encontro com artistas, produtores culturais, escritores ou entidades representativas da cultura. Prefeitos, secretários municipais de Educação e representantes das associações regionais de municípios tampouco foram chamados para discutir os desafios de suas áreas.

E não faltavam assuntos.

Se a preocupação fosse conhecer os gargalos da economia regional, uma conversa com a CDL, a Associação Comercial e os empresários poderia colocar na mesa questões como geração de empregos, crédito, ambiente de negócios e as dificuldades enfrentadas pelo comércio e pela indústria. Afinal, a economia de uma cidade não se movimenta apenas com a circulação de um candidato em carro de som.

No campo cultural, a pauta também está pronta. Governador Valadares tem artistas, escritores, músicos, produtores e grupos que mantêm viva a produção cultural da cidade. A Academia Valadarense de Letras, a Associação dos Artistas Plásticos do Vale do Rio Doce, a Lira 30 de Janeiro, o Coletivo Deck e tantos outros agentes culturais poderiam contribuir para uma discussão sobre políticas públicas, financiamento, acesso aos recursos da Lei Aldir Blanc e mecanismos de incentivo previstos na Lei Rouanet.

Seria uma oportunidade para ouvir quem produz cultura, conhecer suas dificuldades e discutir o papel do governo federal no financiamento e na valorização da produção artística. Mas, pelo visto, a cultura não entrou no roteiro.

Talvez não renda tanta animação quanto um trio elétrico, embora produza algo que nenhuma campanha deveria desprezar: identidade, memória e cidadania.

E o desenvolvimento regional? Esse é um capítulo à parte.

Uma conversa com os prefeitos do Leste de Minas poderia abordar o Fundo de Participação dos Municípios, o Imposto Territorial Rural, os royalties e as compensações financeiras, o salário-educação e as dificuldades de financiamento das administrações municipais. Também seria uma oportunidade para ouvir instituições como o Idene e a Sudene sobre políticas de desenvolvimento, investimentos e alternativas para uma região que precisa transformar suas potencialidades em oportunidades concretas.

Na educação, os temas não são menos urgentes. O Fundeb, o salário-educação, a infraestrutura das escolas e o financiamento das redes municipais merecem discussão permanente. Secretários unicipais de Educação e entidades como a Assoleste e a Ardoce poderiam apresentar demandas e contribuir para um debate que interessa diretamente às famílias e ao futuro das cidades.

Mas nada disso ocupou espaço na agenda de Governador Valadares.

É claro que uma campanha presidencial também precisa de mobilização, símbolos, encontros populares e momentos de descontração. Ninguém espera que um candidato transforme cada visita em um seminário de três dias, com apresentações de PowerPoint, discursos intermináveis e cafezinho institucional.

O futebol tem seu lugar. A música também. E a política não precisa ser sisuda para ser séria.

O problema não está na bola, muito menos no trio elétrico. Está naquilo que ficou de fora.

Uma campanha pode reunir milhares de pessoas e, ainda assim, deixar de ouvir setores fundamentais da sociedade. Pode produzir imagens de entusiasmo sem necessariamente produzir uma conversa consistente sobre os problemas da população. Pode transformar uma visita em acontecimento político sem que dela resulte qualquer compromisso concreto com o desenvolvimento local.

Entre reunir apoiadores e ouvir a sociedade existe uma diferença que não deveria passar despercebida.

A passagem de Flávio Bolsonaro por Governador Valadares deixa, portanto, uma questão que vai além de sua candidatura: qual é o espaço reservado aos problemas regionais na política que se faz hoje? Quando um presidenciável visita uma cidade, a população tem o direito de esperar mais do que um gesto de campanha. Tem o direito de conhecer suas propostas, questionar suas prioridades e saber como pretende enfrentar questões que afetam o cotidiano de milhares de pessoas.

O futebol tem horário para começar, juiz para apitar e placar para registrar o resultado. Já os problemas do Vale do Rio Doce continuam em campo depois que a partida termina.

E, quando o assunto é o futuro de uma região, talvez a pergunta mais importante não seja quem marcou o gol, mas quais propostas foram colocadas na mesa, quais demandas foram ouvidas e quais compromissos ficaram para depois da campanha.

Porque Governador Valadares pode até entrar no roteiro de uma micareta eleitoral. Mas o Vale do Rio Doce não pode ser tratado apenas como cenário de campanha.

A região precisa de menos coreografia eleitoral e mais compromisso com sua realidade.

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