
Há presidentes que visitam uma cidade para prometer o futuro. Luiz Inácio Lula da Silva desembarca nesta sexta-feira (21) em Governador Valadares podendo falar também do passado, e de marcas deixadas por políticas federais que atravessaram diferentes momentos da história recente do município.
A visita desta sexta tem local e motivo definidos. Lula estará na Ponte do São Raimundo para acompanhar as obras de duplicação da BR-116 e da própria ponte. Mas a relação entre seus governos e Governador Valadares é bem maior do que a obra que servirá de cenário para a agenda presidencial.
Talvez por isso Lula possa chegar à cidade com uma certa familiaridade. Não é sua primeira passagem por aqui. Longe disso. Antes mesmo de ocupar a Presidência da República, Valadares já fazia parte de seus roteiros políticos. Ainda sindicalista, Lula vinha à cidade e mantinha relação com lideranças populares locais, entre elas Joaquim Nicolau, conhecido como Joaquim Carroceiro.
Em 1997, já uma das principais lideranças políticas do país, esteve novamente em Valadares, quando visitou o Assentamento Oziel Alves Pereira, do MST. Depois vieram outras passagens, como candidato e também como presidente da República.
Ao longo dos anos, essa relação também passou a ser marcada por políticas públicas e investimentos federais que tiveram impacto direto em Governador Valadares.
Um dos exemplos mais concretos está na educação pública federal. Foi durante o segundo mandato de Lula que Governador Valadares recebeu sua primeira instituição federal de ensino: o IFMG. A pedra fundamental do campus foi lançada em outubro de 2009, o primeiro vestibular ocorreu em dezembro daquele ano e as aulas começaram em abril de 2010.
O próprio Instituto registra que sua atual configuração nasceu da Lei nº 11.892, sancionada por Lula em dezembro de 2008, dentro da expansão da Rede Federal de Educação Profissional e Tecnológica.
A implantação de uma universidade federal no município começou a ganhar forma no fim daquele período, mas foi formalizada mesmo no governo Dilma Rousseff. Em fevereiro de 2012, o Conselho Superior da Universidade Federal de Juiz de Fora aprovou a criação do campus avançado da UFJF em Governador Valadares. As atividades começaram em novembro daquele ano.
Hoje são dez cursos presenciais, entre eles Medicina, Direito, Odontologia, Farmácia e Economia, além de programas de mestrado e doutorado. Em 2020, a universidade já contabilizava mais de 3 mil estudantes no campus de Valadares.
Além de mudar a vida de quem consegue uma vaga, uma universidade federal gera diversas transformações no ambiente onde ela se instala. Ela traz professores, técnicos, pesquisadores e estudantes de outras cidades e estados. Gera demanda por imóveis, alimentação, transporte, serviços e comércio. Forma profissionais que permanecem na região. Produz pesquisa. Presta serviços à população. Atrai gente que talvez nunca tivesse colocado Governador Valadares no mapa de sua própria vida.
Um adolescente de Valadares ou de uma pequena cidade do Vale do Rio Doce, por exemplo, passou a poder olhar para Medicina, Odontologia, Direito ou uma pós-graduação em uma universidade federal não como algo localizado a centenas de quilômetros de casa, mas como uma possibilidade existente aqui.
Portanto, IFMG e UFJF são investimentos que continuam produzindo consequências por gerações. E talvez justamente por isso permaneça uma dívida: depois de quase 14 anos de funcionamento, a UFJF-GV ainda aguarda a conclusão de seu campus definitivo.
Outra política federal com marcas espalhadas pelos bairros de Valadares é o Minha Casa, Minha Vida. Criado em 2009, chegou a alcançar números expressivos no município. Em 2014, quando 653 casas do Residencial Vitória foram entregues, o Governo Federal informava que Governador Valadares possuía 10.436 moradias contratadas pelo programa, representando R$ 704,2 milhões em investimentos.
Aproveitar essa oportunidade – como fez, à época, a então prefeita Elisa Costa – para construir milhares de casas significa comprar cimento, tijolo, ferro, portas, janelas e uma infinidade de outros materiais. Significa contratar pedreiros, serventes, eletricistas, pintores, engenheiros e transportadores. Depois da entrega vêm móveis, eletrodomésticos, supermercados, farmácias e pequenos comércios que surgem para atender os novos bairros.
E o programa continua presente na cidade. Depois de sua retomada pelo atual governo Lula, 240 apartamentos do Residencial Dom Manoel foram entregues em dezembro de 2024, após investimento federal de R$ 21,2 milhões. Outros 500 imóveis dos residenciais Castanheiras I e II estão no processo de seleção de famílias em 2026.
Há ainda investimentos criticados por quem pouco consegue enxergar seus efeitos. Em fevereiro de 2025, cerca de 16.000 famílias de Governador Valadares receberam Bolsa Família. Naquele único mês, foram transferidos R$ 10,44 milhões aos beneficiários do município.
O dinheiro chega a famílias de baixa renda para ajudar a colocar comida na mesa e atender necessidades básicas. Mas não podemos reduzir ou minimizar seu impacto, uma vez que uma parcela considerável volta rapidamente para a economia local.
Está na compra do arroz, feijão, leite e carne no supermercado; no comércio do bairro; na farmácia; no material escolar; no gás. Para uma cidade que exerce forte papel comercial sobre todo o Leste de Minas, mais de R$ 10 milhões injetados em um único mês na renda das famílias também significam dinheiro circulando na economia de Valadares.
Neste atual mandato do petista, a presença federal ganhou novas frentes. Governador Valadares foi contemplada pelo Novo PAC com investimentos na saúde que incluem UBS, CAPS e uma Policlínica. Em janeiro deste ano, o Ministério da Saúde anunciou investimento de cerca de R$ 30 milhões para a construção da nova Policlínica, destinada a ampliar a oferta de atendimento especializado pelo SUS.
E nesta sexta-feira, Lula estará diante da obra mais visível dessa nova etapa. A duplicação da BR-116 e da Ponte do São Raimundo mexe com uma das entradas mais importantes da cidade e com uma rodovia que faz parte da rotina de Valadares. A concessão federal prevê intervenções e duplicações em diferentes trechos da BR-116 em Minas, incluindo o eixo que chega ao município.
Uma reivindicação de décadas da população.
Por isso, é difícil caminhar por Valadares sem, em algum momento, cruzar com algum resultado de uma política pública federal desses períodos. Pode ser o jovem que estuda no IFMG. A estudante de Medicina da UFJF. A família que deixou o aluguel por uma casa do Minha Casa, Minha Vida. A mãe que compra os alimentos do mês com o Bolsa Família. O trabalhador empregado em uma obra. O comerciante que atende moradores de um residencial novo. O paciente que, no futuro, deverá entrar pela porta da nova Policlínica.
Nenhum presidente governa sozinho, nenhuma obra pública é resultado de uma única pessoa e boa parte desses projetos atravessou governos, dependeu de prefeitos, parlamentares, universidades, servidores e instituições. Reconhecer isso é indispensável.
Mas também é impossível apagar a assinatura política de quem definiu prioridades, criou programas ou colocou recursos federais à disposição deles.
Quando Lula chegar nesta tarde à Ponte do São Raimundo, não estará apenas diante de uma obra. Estará diante de uma cidade onde sua passagem pela Presidência deixou rastros concretos.
Alguns estão em prédios. Outros, em salas de aula. Outros, em casas. Outros sequer podem ser fotografados, porque aparecem na renda de uma família, na formação de um jovem ou na perspectiva de futuro de quem descobriu que poderia estudar numa instituição federal sem precisar deixar o Vale do Rio Doce.
E talvez seja esse o maior patrimônio político que Lula encontra em Governador Valadares: a possibilidade de apontar não apenas para aquilo que promete, mas para aquilo que já ficou.





