O Relógio e o Ser: A Crise da Duração na Era da Incerteza

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O Relógio e o Ser: A Crise da Duração na Era da Incerteza
Imagem gerada por IA.

A incerteza é a tônica do nosso mundo. As últimas três décadas são marcadas, entre outras coisas, por um salto nunca antes visto no fluxo de ideias e informações. Nesse processo, nós, consciente ou inconscientemente, passamos a ter dúvidas sobre a nossa posição e papel na sociedade. E, quando falo de nós, refiro-me aos reles mortais que se sentem perdidos e em crise identitária no meio de todo esse imbróglio. Essa é uma questão intergeracional, pois da geração Y à geração Z, todos estão buscando um lugar no mundo.

Para aqueles da geração X, e da geração Y que já passaram dos 30, a lembrança do passado apresenta um lugar de conforto. Presenciamos uma transição tecnológica e vivemos transformações no ritmo de vida que não são fáceis de assimilar. Ademais, toda a lógica neoliberal e a “objetificação” das relações humanas nos fazem desconsiderar a máxima de que o “ter” tem limites, diferente do “ser”, que pode ser continuamente desenvolvido. Por isso, não raras vezes buscamos a nossa identidade, o nosso “ser”, no passado, numa espécie de reminiscência que se transforma em um caminho para a nostalgia. Se um objeto ou cheiro nos faz lembrar de algo, é a emoção associada a essa lembrança que a transforma em nostálgica.

Como normalmente dedicamos pouco tempo a interpretar as emoções, o sentimento nostálgico geralmente passa sem que percebamos traços importantes sobre a nossa própria história. O sentido positivo da nostalgia não está apenas na lembrança em si, mas essencialmente na emoção conectada ao desejo de se vivenciar aquilo novamente. Mas será que aquela lembrança é tudo isso? Toda memória é carregada pela emoção, e costumo dizer que, sempre que uma situação nos leva a um quadro de nostalgia, percebo que não sentimos saudade das situações em si, mas da pessoa que éramos naquela situação, com aquelas pessoas, dentro daquele contexto. Percebo que sentimos falta, sobretudo em memórias de longa data, do puro sentimento de esperança, não contaminado pelas amarguras da vida madura. É exatamente neste ponto que se resgata a criança que pode ter morrido em todos nós. Ela pode até não prevalecer, mas é essencial que seja mantida saudável.

Essa criança contemplativa, genuinamente esperançosa, muitas vezes não encontra espaço para existir em meio a todos os nossos afazeres, redes sociais, e-mails e grupos de amigos e família no WhatsApp. Qualquer tempo livre deve ser preenchido por uma passagem no Instagram, X ou TikTok, pois temos a sensação de que isso combate a ansiedade de uma cabeça que não está permanentemente ocupada. Não preciso aqui refletir sobre como essa é uma perspectiva enganosa, mas reconhecemos juntos esse padrão comportamental. No meio disso, o tempo passa, de maneira quantitativa, sob o prisma científico, e qualitativamente, considerando a ação do tempo em nossas vidas.

O filósofo francês Henri Bergson, matemático brilhante que preferiu dar ênfase à importância do pensamento filosófico, defendeu, a grosso modo, que a ciência não poderia abordar o tempo qualitativo. Para Bergson, a relação mais verdadeira com o tempo residia na experiência individual, pois caberia à intuição processar a duração. Você pode imaginar o tempo no mundo como um elemento único, regido por uma única lei, ou considerar que, a partir de diferentes pontos, os ritmos de duração são distintos, mais lentos ou rápidos, mas que têm a duração percebida pela intuição. Do contrário, na visão de Bergson, se apenas medirmos o tempo pelo relógio, desconsideramos qualitativamente o tempo vivido.

Não se trata aqui de uma defesa da visão de Bergson, ganhador do Prêmio Nobel de Literatura em 1927, que também protagonizou um debate com Albert Einstein sobre o tempo. Mas de se refletir sobre o nosso tempo, influenciado pelo relógio e deturpado pelas nossas convicções de que devemos ser perfeitos e responder a todos os chamados do mundo físico e virtual. Na sua visão, essa experiência subjetiva e indivisível representava a verdadeira relação com a duração dos eventos. O que fazemos em casa é parte do mesmo tempo do que fazemos no trabalho, e o que fazemos agora é parte do que fizemos no passado ou faremos no futuro. A memória involuntária pode se converter na própria nostalgia que nos faz reviver o passado no presente, mostrando que todo este tempo esteve ligado.

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