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Subjetividade em Vertigem

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Subjetividade em vertigem
Imagem gerada por IA.

Samuca estava pálido, e do pouco que ele dizia, não se compreendia coisa com coisa. Chamava atenção alguém tão progressista, engajado, manifestando tamanha prostração. Pelo direito de ser apático foi a sua última mensagem no Twitter, publicada antes de se exilar, em seu quarto, fato que já indicava a nova bandeira de luta daquele que não queria mais refletir sobre nada. Preguiça de tudo e de todos era o seu estado de espírito.

O quadro que acometeu Samuca tinha raízes em um contexto maior, no interior do qual
desmoronava, como farelo, toda a estrutura social que havia sustentado a sua vida razoavelmente privilegiada, típica de classe média interiorana. Não somente os padrões de vida dele e da sua família passavam por mais um rebaixamento; a própria vinculação cultural-simbólica dele para com uma versão idealizada de Brasil deixava de existir.

Após trinta encontros inúteis com um psicólogo, cujas sessões variavam em torno do famigerado “pense positivo”, a sua mãe resolveu intervir, levando-o a um especialista, que recentemente abriu uma clínica só para atender casos parecidos com o de Samuca. Ela suspeitava de depressão, hipótese prontamente descartada pelo Dr. Arthur, que começou a consulta investigando os hábitos de consumo do seu filho:

– Ele está lendo Nietzsche, Schopenhauer ou Heidegger?

– Não, eu os queimei, todos, desde quando me disseram que ele não mais podia ter contato com esses autores, respondeu Dona Regina. A única coisa fora do habitual que ele fez antes de ficar assim foi assistir aos documentários da Petra Costa.

– Então tá explicado, disse o doutor, que imediatamente começou a redigir o seguinte diagnóstico [para lê-lo integralmente, clique aqui]. Surpreendida, Dona Regina ficou incumbida de cancelar, urgentemente, a assinatura de Samuca na Netflix, tratamento que só teria efeito em consórcio a um detox, por três meses, de qualquer conteúdo audiovisual produtor de imaginação apocalíptica:

“Essa forma de cinema opera por meio de uma estética cuidadosamente equilibrada:
imagens belas, vozes suaves, narrações subjetivas, depoimentos emocionais, trilhas melancólicas […]. Sua audiência é a classe média urbana, escolarizada, fragilizada pela ascensão da direita. […] A narrativa sempre gira em torno de um trauma, uma perda simbólica, uma história interrompida por forças obscuras. […] Essa poética da melancolia cumpre uma função estratégica: neutralizar o impulso crítico por meio da estética da comoção. […] A política, em vez de ser compreendida como campo de conflitos históricos e materiais, é traduzida como um drama moral, como uma história de injustiça que atinge os ‘bons’, os ‘sensíveis’, os ‘democratas’. O efeito disso é devastador […]. O lamento ocupa o lugar da crítica. A tristeza substitui a análise. […] A melancolia se transforma em uma forma de aceitação passiva do desastre”.

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