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Por Uma Educação Mais Humana

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Por Uma Educação Mais Humana
Imagem: Divulgação/Internet

Há quem diga que, se ganhasse na loteria, a última coisa que faria seria abrir uma escola.
Essa fala, apesar da brincadeira, é relativamente comum entre profissionais da educação.
Em tom de piada, ela revela que o ambiente onde nossas crianças e jovens passam a maior
parte do tempo causa desconforto – desconforto esse sentido tanto pelos alunos quanto
pelos profissionais envolvidos.

Reconheço que a escola e o ato de aprender, muitas vezes, geram situações de desafio e
inquietação. Isso é natural. Mas vamos tratar de questões que vão além dos desafios de
aprendizagem que o jovem enfrentaria mesmo se tudo estivesse em perfeitas condições.

Até pouco tempo atrás, o esgotamento mental dos profissionais da educação era tratado
como uma crise silenciosa. Hoje, trata-se de uma questão escancarada. Trata-se de um
problema generalizado: dados de 2024 do Ministério da Previdência apontam que 472 mil
pessoas estiveram de licença médica pelo INSS por razão de transtornos mentais. É importante incluir na reflexão todos os demais agentes da escola, estejam ou não ligados
diretamente ao pedagógico, pois falamos de um sistema que impacta todos os níveis
institucionais. Escolas públicas e privadas enfrentam desafios similares nesse sentido.

Tratando especificamente dos professores, destaco duas questões nesse processo. A
primeira é a sobrecarga. A realidade da maior parte dos docentes é pautada por uma busca
incessante por aulas, na tentativa de compor a melhor renda possível. O resultado disso é
um profissional atuando em várias instituições, assimilando procedimentos distintos, lidando com públicos diversos e enfrentando diferentes formas de pressão e gestão.

Você pode, então, questionar: “Mas é só não pegar tantas aulas!” Verdade. Mas aí a conta
não fecha. É só perguntar a qualquer professor que luta para conseguir uma quantidade
mínima de turmas. E se somarmos a essa realidade a figura das mulheres – que, como
sabemos, ainda acumulam a jornada doméstica e os cuidados com os filhos – o cenário se
torna ainda mais complexo.

A segunda questão pode ser chamada de “propriedade” da educação. A escola, pública ou
privada, é feita pela comunidade, e suas diretrizes institucionais deveriam levar em conta o
seu entorno. Isso, quando bem feito, é salutar, pois aproxima a escola das expectativas do
seu público.

Entretanto, os agentes preparados para desenvolver, sem usar um termo técnico, o
caminho educativo estão dentro da escola. A internet, a radicalização política e a
disseminação de notícias falsas fizeram com que uma parcela significativa da população
passasse a tratar a educação como uma extensão de suas convicções pessoais, e não
como o resultado das necessidades de uma comunidade educativa. Tornou-se mais comum
do que se poderia imaginar os casos de pais que exigem mudanças curriculares baseados
em juízos particulares. Importante dizer: isso não tem lado político. A educação, por
essência, é um bem de todos. E o resultado dessas tensões, infelizmente, é um clima hostil, onde a energia que deveria estar direcionada aos processos pedagógicos acaba sendo dissipada em meio a pressões internas e externas.

Ao mesmo tempo – e claro, isso não é uma regra – muitas famílias promovem uma ausência psicológica em seus filhos. Seja pela necessidade do trabalho, seja pela escolha de outras prioridades, essa presença ausente impacta diretamente o desenvolvimento emocional, social e acadêmico de crianças e adolescentes. É uma espécie de ausência parental de corpo presente. Essa desconexão, geralmente associada à queda no rendimento escolar, também aumenta a incidência de comportamentos de risco entre os jovens.

A família precisa, sim, estar eticamente presente na escola. No entanto, não pode se
esquecer de seu papel protagonista na formação integral do indivíduo.

Fazer uma revisão sistemática das políticas educacionais e do próprio modelo escolar é urgente. Há descompassos evidentes entre o que dizem as tendências mais modernas da educação e a realidade vivida cotidianamente dentro das escolas. Esse descompasso, muitas vezes, desconecta o aluno do processo. Se há algumas décadas discutíamos a indisciplina, hoje a apatia é um fenômeno ainda mais grave.

A apatia é multifatorial. Envolve a escola, a família e o meio. Por isso, as ações precisam
ser conjuntas. A família é essencial, como sempre foi, mas uma escola comprometida tem
igual importância. Se a escola precisa ser mais acolhedora e significativa, é a ação
integrada entre profissionais, famílias e diferentes áreas do saber que trará resultados
consistentes.

Os problemas da educação são complexos e interligados, e eles se manifestam tanto dentro quanto fora dos muros escolares. É urgente que a comunidade passe a enxergar esses desafios de forma sistêmica, promovendo, em conjunto, uma educação voltada para a cidadania, para a criticidade e para o diálogo. A escola precisa também valorizar equipes
multidisciplinares e projetos que promovam uma verdadeira inclusão dos alunos. A educação, acima de tudo, precisa ser humana.

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