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CPI da Nobe não comprova desvio, mas aponta irregularidades em contratos de Valadares

CPI da Nobe não comprova desvio, mas aponta irregularidades em contratos de Valadares
Jackes Keller (DEM), relator da CPI, fez a leitura do documento. Foto: O Olhar

O relatório final da Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) da Nobe, apresentado na tarde desta sexta-feira (9), na Câmara Municipal de Governador Valadares, concluiu que não foram encontradas provas de desvio, apropriação ou falta de repasse de aproximadamente R$ 4 milhões da arrecadação municipal. A ausência de comprovação de desvio, porém, não significa que as cobranças tenham sido regulares. A investigação identificou despesas realizadas sem autorização administrativa, sem empenho prévio e sem saldo contratual, além de falhas na implantação e no funcionamento dos sistemas tributários da Prefeitura.

Um dos principais apontamentos envolve o Contrato nº 118/2025, que previa R$ 453.468,00 para doze meses de serviços financeiros. Somente em janeiro e fevereiro de 2026, os demonstrativos registraram R$ 3.442.340,21 em tarifas – aproximadamente 7,6 vezes o valor estimado para o ano inteiro. Segundo a CPI, embora os preços unitários fossem compatíveis com os contratados, o volume de operações cobradas não possuía a necessária cobertura administrativa e orçamentária.

Elaborado pelo relator, vereador Jackes Keller (DEM), o documento aponta que despesas foram realizadas sem autorização administrativa, sem empenho prévio e sem saldo contratual, em volume muito superior ao inicialmente previsto. O relatório recomenda auditorias para verificar a regularidade das cobranças, identificar eventuais valores indevidos e apurar os efeitos das falhas sobre a arrecadação municipal.

A CPI foi presidida pelo vereador Jamir Calili (PP), tendo Sandra Perpétuo (PT) como vice-presidente. Também integraram a comissão os vereadores Roncali da Farmácia (PRD) e Valdivino Lima (Avante).

Tarifas ultrapassam previsão anual em apenas dois meses

A movimentação financeira relacionada ao processamento de boletos de arrecadação municipal foi um dos tópicos prioritários da investigação.

Segundo o relatório, documentos da Secretaria Municipal da Fazenda registraram débitos de R$ 739.649,49 em janeiro, R$ 2.718.156,25 em fevereiro e R$ 1.006.707,91, parcialmente identificados, em março de 2026. Esses valores deram origem à suspeita de retenção indevida de recursos públicos.

Após analisar documentos e ouvir servidores, a CPI concluiu que os débitos examinados correspondiam a tarifas de registro, processamento, liquidação e baixa de boletos, e não a valores comprovadamente desviados da arrecadação.

O principal questionamento, portanto, não está apenas nos valores unitários das tarifas, mas na quantidade de operações cobradas e na regularidade dos pagamentos. O relatório ressalta que a previsão contratual de débito automático não dispensava autorização da despesa, empenho prévio e saldo contratual, exigências previstas na legislação de finanças públicas.

A comissão também identificou uma diferença de R$ 15.465,53 entre os demonstrativos analíticos de janeiro e fevereiro e os valores informados em comunicado da Secretaria da Fazenda, recomendando que a divergência seja esclarecida.

Prefeitura já havia determinado suspensão de cobranças

O relatório registra que, em 18 de março de 2026, a Secretaria Municipal da Fazenda determinou que a Nobe esclarecesse a origem e a metodologia de cálculo das tarifas, promovesse a devolução de valores indevidamente debitados e suspendesse cobranças que gerassem despesas ao município.

A empresa solicitou ampliação de prazo e informou ter iniciado uma auditoria interna.

Entretanto, a CPI não encontrou, no material examinado, comprovação da restituição de valores, da interrupção das cobranças ou da conclusão da conciliação financeira.

Por isso, recomendou que a Prefeitura realize uma auditoria das tarifas debitadas desde o início do Contrato nº 118/2025, verificando cada operação, a existência de cobranças indevidas e as providências adotadas para eventual restituição.

Falhas atingem notas fiscais, cadastros e pagamentos

Além das questões financeiras, a comissão identificou problemas na implantação e no funcionamento dos sistemas tributários.

De acordo com documentos produzidos por setores da própria Prefeitura, a plataforma entrou em operação em setembro de 2025 sem a devida validação e homologação pelos servidores municipais. Também foram relatadas deficiências de treinamento e ausência de funcionalidades necessárias às atividades de fiscalização.

Entre as ocorrências documentadas estão divergências nos cadastros imobiliários, demora na baixa de pagamentos, inconsistências em parcelamentos, emissão de certidões incorretas e falhas na integração entre os sistemas de notas fiscais e gestão tributária.

Em um dos casos, um pagamento parcial de R$ 1.984,44 foi registrado como quitação integral de uma cobrança de R$ 3.968,88.

Outro problema envolveu a emissão de notas fiscais de serviços eletrônicas (NFS-e). Em março, a Secretaria da Fazenda notificou a contratada sobre falhas que prejudicavam o fechamento da escrituração fiscal e a apuração do Imposto Sobre Serviços (ISSQN).

A documentação menciona falta de sincronização com o sistema nacional, notas fiscais não registradas corretamente, emissão em duplicidade e 1.006 solicitações de cancelamento registradas em um único dia, 11 de março de 2026.

A Nobe atribuiu parte dos problemas à instabilidade do sistema nacional e a configurações sob responsabilidade do município.

A CPI concluiu que as falhas precisam ser avaliadas tecnicamente para determinar suas causas, a extensão dos problemas e eventuais prejuízos.

Queda na arrecadação não foi atribuída à empresa

O relatório também menciona informação da Secretaria da Fazenda sobre redução de 39,85% na arrecadação do primeiro bimestre de 2026 em comparação com o mesmo período de 2025.

A comissão, contudo, ressalta que os documentos não identificam o tributo relacionado à queda nem demonstram que a redução tenha sido causada pelo sistema da Nobe.

Por essa razão, recomendou uma auditoria contábil e tributária específica sobre a arrecadação do ISSQN durante a transição entre os sistemas.

CPI não comprova direcionamento ou conflito de interesses

A investigação examinou dois contratos firmados com a Nobe por meio de adesões a atas de registro de preços do Consórcio Intermunicipal Multifinalitário para o Desenvolvimento Ambiental Sustentável do Norte de Minas (Codanorte).

O Contrato nº 026/2024, inicialmente de R$ 3,97 milhões, teve seu valor reduzido para aproximadamente R$ 3,91 milhões. Já o Contrato nº 118/2025 foi firmado por R$ 5,2 milhões.

A CPI não reuniu elementos suficientes para confirmar ou afastar a vantagem econômica das contratações em comparação com o sistema anteriormente utilizado pela Prefeitura.

O relatório também examinou a relação profissional do ex-procurador da Fazenda Municipal Allan Dias Toledo Malta com a Nobe. Conforme documentos analisados, ele figurou como advogado constituído da empresa em processo judicial durante o período em que ocupava o cargo público.

Apesar disso, a comissão não encontrou provas de que o ex-procurador tenha participado ou influenciado a contratação da Nobe em Governador Valadares. O documento recomenda a criação de procedimentos formais para declaração e prevenção de conflitos de interesses.

Dados de contribuintes também foram expostos

Outro episódio registrado no relatório envolve uma falha que permitia visualizar nome, CPF e endereço de contribuintes durante a emissão de segunda via de débitos, sem necessidade de informar dados de identificação.

A Secretaria Municipal da Fazenda notificou a contratada em 16 de março. Dois dias depois, a empresa apresentou resposta acompanhada de imagens que indicavam alteração no procedimento de consulta.

A CPI recomenda verificar tecnicamente se a correção foi suficiente, por quanto tempo a falha permaneceu ativa e qual foi a extensão da possível exposição de dados pessoais.

Relatório será encaminhado aos órgãos de controle

Entre as recomendações apresentadas pelo relator estão a realização de auditorias sobre os pagamentos à Nobe, a arrecadação do ISSQN e a atuação da instituição financeira subcontratada para operacionalizar os boletos.

O documento propõe que a Prefeitura apresente uma conciliação inicial das tarifas em 30 dias e um relatório conclusivo em 60 dias. Também recomenda a preservação dos registros financeiros e das bases de dados dos sistemas municipais.

As conclusões e o material reunido pela CPI deverão ser encaminhados ao Ministério Público de Minas Gerais, ao Tribunal de Contas do Estado, à Comissão de Finanças da Câmara e à autoridade policial responsável pela investigação relacionada à arrecadação municipal.

O relatório também menciona a Operação Boleto Fantasma, deflagrada pela Polícia Civil na quarta-feira (7), que investiga suspeita de retenção indevida de aproximadamente R$ 5,6 milhões.

O relator ressalta, entretanto, que os documentos e as decisões judiciais dessa investigação não integraram o material examinado pela CPI. Assim, a conclusão parlamentar de que não houve comprovação de desvio se limita às provas reunidas pela comissão e não interfere na investigação criminal.

O relatório propõe, por fim, a continuidade da fiscalização pelos órgãos competentes para esclarecer a regularidade das cobranças, identificar eventuais prejuízos e determinar responsabilidades.

CPI da Nobe conclui que não foram encontradas provas de desvio de recursos, mas identificou diversas irregularidades no serviço prestado.

CPI da Nobe não comprova desvio, mas irregularidades – O Olhar

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