
Todo ano, no Dia Internacional da Mulher, a Câmara Municipal realiza sua tradicional sessão solene. Cada vereador indica um nome. Em geral, a maioria das homenageadas são mulheres com trajetórias consolidadas e reconhecimento social: médicas, advogadas, professoras, empresárias e profissionais liberais.
Todas são histórias respeitáveis.
Mas também sempre há uma escolha que chama atenção. É o caso da indicação da catadora de materiais recicláveis Keila Arruda Rocha, de 32 anos, mãe de três filhos, moradora do bairro Turmalina, nascida e criada em Governador Valadares.
Não apenas por ser a primeira catadora da cidade a ingressar em um curso superior. Mas principalmente por exercer uma atividade em que muitas pessoas não enxergam a trabalhadora ou o trabalhador, mas apenas o lixo.
Keila construiu sua trajetória acordando cedo para garantir o sustento da família, enfrentando invisibilidade social e preconceito. Trabalha na Associação dos Catadores de Materiais Recicláveis de Governador Valadares (Ascarf), da qual é presidente fundadora. A atividade na reciclagem é sua única fonte de renda.
O caminho dela também passa pela educação. Ela é a primeira catadora de Valadares a ingressar em um curso superior. Atualmente cursa o 6º período de Pedagogia. Além da força de vontade individual, a conquista foi possível graças a uma bolsa de estudos integral concedida pela Univale – Universidade Vale do Rio Doce.
O percurso até a universidade começou muito antes. Desde criança, acompanhava a mãe no antigo lixão da cidade, onde muitas famílias garantiam – e ainda hoje garantem – o sustento diário. Interrompeu os estudos quando engravidou. Anos depois retomou a formação por meio do EJA (Educação de Jovens e Adultos) e concluiu o ensino médio.
Por conta do apoio técnico que a Ascarf recebia da Univale, as idas e vindas à universidade despertaram nela a vontade de subir mais um degrau na educação.
“Pra mim, curso superior era só para rico, só para quem tinha dinheiro. Nunca imaginei que um dia estaria lá, aprendendo tanto. É um outro mundo. Com o estudo ampliamos nossa visão, nosso conhecimento e nos tornamos cidadãos mais críticos, como já dizia Paulo Freire”, conta.
Essa trajetória influencia diretamente a maneira como ela vê a própria conquista. “Ser a primeira da família e a primeira catadora da cidade a cursar o ensino superior é motivo de muita comemoração. Mostra que nós, catadores, também podemos ocupar espaços que sempre sonhamos”, reflete.
A homenagem a ser recebida faz referência à bióloga e ativista Bertha Lutz, uma das figuras centrais da luta pelos direitos das mulheres no Brasil. Keila ressalta que enxerga paralelos entre aquela mobilização histórica e o cotidiano das mulheres catadoras que seguem organizadas em busca de reconhecimento e direitos.
“Bertha Lutz é uma mulher que me inspira muito, principalmente por incentivar as mulheres a buscar seus direitos. Vejo um pouco dela na luta das mulheres catadoras”, diz.
Ao comentar a indicação de seu nome para receber o Diploma Bertha Lutz, na noite desta terça-feira (9), na Câmara Municipal, ela faz questão de ampliar o significado da homenagem. “Há muito preconceito contra quem trabalha com reciclagem. Mesmo assim continuamos caminhando. Essa homenagem não é só minha. É de todas as mulheres catadoras”, destaca.
O trabalho das catadoras e dos catadores sustenta uma parte importante da cadeia de reciclagem nas cidades brasileiras. Ainda assim, trata-se de uma atividade marcada por invisibilidade social e estigmas históricos.
Quando uma mulher que construiu sua trajetória nesse campo recebe reconhecimento institucional, a homenagem passa a dialogar com uma realidade coletiva. Histórias como a de Keila existem em muitos bairros, em muitas cooperativas e associações de reciclagem em Valadares e em diversas cidades do país.
O que muda, neste caso, é o lugar de visibilidade.
Ao indicar uma catadora como uma das homenageadas do Dia Internacional da Mulher, o vereador Jamir Calili (Progressistas) também amplia a narrativa sobre quem constrói diariamente a cidade, seja nos espaços tradicionais de poder, seja nas atividades que ainda permanecem à margem do reconhecimento público.
Talvez seja justamente essa ampliação de perspectiva que mais se aproxima com o sentido original do 8 de Março: reconhecer trajetórias de trabalho, organização e busca por direitos que muitas vezes passam longe dos holofotes.